Diálogo interessante entre pai e filho na Academia de Futebol, logo após os dois terem saído da sessão onde são escolhidos os novos dirigentes do Palmeiras:

- pai, por que você votou e esse monte de gente não ta votando, eles não são palmeirenses?
- são sim filho, os que não são palmeirenses estão ali fora – a imprensa; mas o papai votou porque é conselheiro.
- e só vota quem é conselheiro, pai?
- só.
- o que que é um conselheiro, pai?
- é aquele que é eleito pra poder eleger o presidente.
- então quando a professora na aula de História falar do Antônio Conselheiro, é certo responder que era um senhor de nome Antônio que era escolhido pra poder escolher, pai? Ou é só com presidente?
- não, nada a ver filho, aquilo é outra coisa, aqui é conselheiro do Palmeiras!
- ele era palmeirense, pai? Porque isso na apostila nunca mostra…
- não, filho, não! Conselheiro do Palmeiras é um nome dado a alguém que é especial na vida do Palmeiras, você participa de uma eleição e votam em você e se você ganhar você é especial…
- especial por que, pai?
- porque você pode escolher o presidente, filho!
- então quando você votou na Marina você podia ser chamado de conselheiro, pai?
- não, lógico que não!
- então de especial, pai?
- também não.
- porque ela perdeu?
- aquilo, meu filho – e como você pergunta, em? -, aquilo era eleição para presidente do Brasil, eleições gerais, democracia…
- o que é democracia, pai?
- …como eu ia dizendo, meu filhotinho, aquilo era democracia… Que é todo mundo exercendo o direito à escolha, o voto.
- então democracia é uma coisa boa, pai!
- sim, meu filho, sim… Que bom que você entendeu.
- então quer dizer que não existe democracia no Palmeiras, pai?
O menino esboça uma carinha de choro, como quem está prestes a ouvir a confirmação do que não queria.
- filho, ouça uma coisa: o Palmeiras é um clube, uma sociedade organizada e independente, tem as suas regras de escolha, a sua maneira de evoluir…
A criança não se convence muito, mas limpa o broto de lágrima na aba da camisa verde que o veste com folga e graça.
- pra quem você votou, pai?
- aprenda uma segunda coisa, guri: o voto é secreto!
- tomara que você tenha votado para um presidente que monte um time tão bom quanto aqueles que você me conta. Aquele da foto da sala que tem o Evair o e Tonhão e o outro, do Oséias e Paulo Nunes, que ta lá no pôster do seu quarto.
- times como aqueles, nunca mais, meu filho.
- nunca?
- nunca mais!
- por que, pai?
- porque os tempos são outros, meu filho.
- que pena que não existe mais jogador bom como aquela época!
- é, meu filho, pois é, hoje até que existem jogadores melhores, e em um número bem meior que aquela época.
- mas então por que não dá nunca mais pra termos times como aqueles, pai?
- todos vão pra Europa, somos pobres perto da Europa, não temos chance.
- ninguém, né pai? Coitado dos times brasileiros, né pai?
- ah, filho, o Santos teve o time com Robinho, Neymar, Ganso…
- mas eles não competem com a Europa, né pai?
- trouxeram o Elano.
- e o Flamengo trouxe o Ronaldinho, né pai?
- isso, filho.
- e aquele time que o você não gosta de falar o nome tem Ronaldo e Roberto Carlos, né pai?
- isso.
- mas como o você mesmo disse, eles não competem com a Europa.
- é…
- será que não tem um jeito da gente não competir com a Europa também, pai?
- tem, filho, até pode ter, aliás, mas já pensou…
- no que, pai?
- nós montarmos um time bom e gastando pouquinho?
- isso é bom né pai?
- e esse time repleto de revelações que custaram baratinho, ganha títulos, e depois os jogadores são vendidos por um preço alto? O clube fica rico de novo!
- que legal, pai! – o garotinho fica eufórico – E aí vai ser igual a que time, pai?
- como assim, igual a que time, filho?
- ah pai, conta pra mim, o time que nos custou barato e deu alegrias ao Verdão?
O pai percebe-se de olhos encharcados. Procura um lenço, olha pra cima, disfarça-se do filho.
- ainda não tivemos, meu menino.
- e por que alguém vai querer contratar um tipo de time que nunca ganhou título pro Verdão, pai?
- às vezes é o que dá pra fazer, filho.
O menino se dá conta da tristeza do pai. Torna a lacrimar-se, mas faz questão de olhar para o herói.
- o senhor não votou para um presidente que vai montar um time para não ganhar título, votou pai?
Ouve-se o inequívico silêncio que toca a conversa e as sensações de quem vê.
- pai? – o menino quebra o gelo.
- oi.
- como é comemorar um título?
- ué, em 2008 você comemorou!
- eu tinha 5 anos, pai. Esse ano já farei 8, agora sei o que é comemorar.
- então, meu filho, você sabe…!
- sei mas não conheço o gosto, pai. Que gosto tem?
- é especial, meu filho! É um momento único… Todo mundo que lhe conhece vem cumprimentar, sabe? Você se sente o máximo, fica alegre à toa e esquece que a vida tem problemas… Só os campeões sabem: comemorar um título é ser supremo!
- poxa, pai… É tão bom assim?
- É, meu filho, é melhor que o tão bom assim!
O menino cai em lágrimas. Chora de soluço brusco. Chama a atenção de todos.
- meu filho – acude o pai – tenha calma, não precisa chorar por não ter visto títulos… Ainda chegará a sua vez…
- nã-ão-o pai, nã-ão é is-so.
- que foi, meu filho?
- é que eu to descobrindo que amar não é fazer bem…
- como assim? Amar é o que há de maior nobreza humana, de mais bonito…
- e como alguém que me ama pode escolher um presidente que não vai me deixar ver o Palmeiras ser campeão?
- nã0 é bem assim, meu filho…
- você me ensina a amar o Palmeiras e não colabora para que eu comemore títulos?
- mas você ainda irá comemorar, meu filho!
- até quando, pai?
- logo, filho…
- … digo… até quando um punhadinho vai escolher o que é bom ou ruim para milhões de palmeirenses?
- filho, a regra do conselho não é minha… O que você quer que eu faça?
- quero que você entenda, a patir de hoje, que todo palmeirense é especial.
E de repente não havia mais pano verde que desse conta das lágrimas do garoto.
LMR
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